Como lidar com pessoas que incomodam

Como ter uma conversa difícil

Muitos dos meus coachees durante o processo, invariavelmente, trazem reclamações sobre outras pessoas de seu convívio, o que é bastante natural. O que me chama atenção é o fato de haver bastante dificuldade de enxergar que ali, naquela relação, naquele “conflito velado” (pois na maioria das vezes o alvo das reclamações nem sabe que se trata de “persona non grata”) existe uma oportunidade incrível de aprendizado.

Quando as reclamações chegam até mim eu normalmente pergunto se meu cliente já fez algo com relação a isso e o que ouço normalmente é um “não” como resposta. Pergunto se a pessoa tem conhecimento de seu incomodo com relação à ela e de novo a resposta é, na maioria da vezes “não”. Daí busco saber se há desejo de fazer algo com relação a isso e quando ouço um “sim” normalmente ele vem acompanhado do:

— Mas daí eu vou ter de conversar com fulano(a) e só de pensar me dá preguiça. Já sei como vai ser a conversa. Já consigo até imaginar as respostas que vou ouvir e não vai resolver nada.

De fato é bem mais fácil, dá bem menos trabalho continuar se queixando do outro e esperar que algo de sobrenatural aconteça, que ele adivinhe o que você quer dele e venha te pedir desculpas por todos os transtornos que lhe foram causados, certo?

Já parou pra pensar que, para o ser que tanto te incomoda, você pode não significar tanto quanto gostaria?
Já parou pra pensar que o mundo não gira ao seu redor?
Já parou pra pensar que para essa outra pessoa pode estar tudo certo na relação de vocês já que você nem se dá ao trabalho de comunicá-la sobre suas insatisfações ou quando o faz não é assertivo o suficiente?

Se convenceu de que a conversa é necessária? Se sim, continuemos… Vamos arregaçar as mangas e trabalhar nisso. Isso mesmo: trabalhar. A minha proposta é que você se prepare para essa conversa.

Passo 1: Pegue uma folha de papel em branco.
Passo 2: Divida-a ao meio com um traço para obter duas colunas.
Passo 3: Na coluna da direita transcreva o diálogo (as falas) que se imagina tendo com essa pessoa. Somente o que é dito, por você e por ela.
Passo 4: Na coluna da esquerda, ao lado de cada um dos seus diálogos coloque o que você está sentindo (medo, raiva, tristeza, amor, alegria, etc.) e seus julgamentos (o que não está sendo dito, mas pensado por você) e o que está deixando de dizer, apesar de pensar em dizer.

Acabou? Se sim, agora responda às seguintes questões:
Passo 5: Como você gostaria que esse diálogo acontecesse?
Passo 6: O que te impede de dizer o que está na coluna esquerda?
Passo 7: Se você diz o que está na coluna esquerda, o que acontece?
Passo 8: Qual é o custo de não dizer o que está na coluna esquerda?

O que normalmente acontece após a reflexão proposta é se dar conta do seguinte: se você traz a sua coluna esquerda para o diálogo você intoxica a conversa. Mas o custo de não trazê-la à conversa acaba intoxicando a você.

Portanto, agora reescreva sua conversa, a sua parte do diálogo desintoxicando-o. Baseie-se nas informações abaixo e se utilize da forma desintoxicada sugerida:

Forma tóxica: Você é ingrato!

Forma perfumada: Eu sinto que você é um ingrato!

Forma desintoxicada: Quando você (descreva a atitude que a pessoa toma que te incomoda, atente-se somente ao fato), eu me sinto (sentimento), pois (descreva aqui a sua necessidade) é importante para mim, portanto gostaria de te pedir (faça seu pedido, diga o que deseja dele tendo em vista tudo o que até aqui foi colocado).

Para ficar mais claro, vou exemplificar:

“Quando você chega depois do horário combinado eu me sinto desrespeitada, pois pra mim é importante estar ao seu lado aproveitando ao máximo o tempo que reservei pra ficarmos juntos, portanto gostaria que isso não mais se repetisse e se por acaso acontecer, em função de algum imprevisto, me avise.” ao invés de por exemplo: ” Você é um mimado. E eu realmente não devo fazer a menor diferença na sua vida, né? Você não dá a menor importância para mim, pois sempre está atrasado. Não aguento mais isso!”

Eu disse que ia dar um trabalhinho, mas se você fizer essa preparação e se dispuser a cuidar da parte que é sua nessa conversa pode se surpreender com a reação do outro.

Já ouviu falar da lei da física “ação e reação”? Prepare-se para essa conversa e deleite-se com o resultado.

Eu nunca soube de um feedback negativo da utilização da técnica, mas caso aconteça, volte aqui pra me contar o que aconteceu.

Eu mesma me utilizo da técnica, que aprendi numa das minha formações, no Instituto Appana, sei que ela é baseada também em princípios da Comunicação Não Violenta e pode te ajudar a solucionar conflitos de uma forma muito mais promissora que as utilizadas até então.

Desejo a você uma boa nova conversa.

Referências bibliográicas: Kofman, F. – Metamanagement: O Sucesso além do sucesso – A nova consciência dos negócios (6ª edição ed.) Rio de Janeiro: Elsevier. 2004;
Senge PM, Ross R., Smith B., Roberts C. Kleiner A. – A quinta disciplina – Caderno de Campo. 3ª Reimpressão. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2007;
Wolk, L. Coaching – A arte de soprar brasas. Rio de Janeiro: Quality Mark, 2008.

<span>TAGS : </span>

Janaína Velloza

Leave A Comment